#WeAreN2016 – “Eu pude escapar, mas há mais de 3.000 meninas yazidis que são escravas sexuais”, diz garota yazidi que escapou do Estado Islâmico

samia

Os pais de Kayla Mueller e uma jovem yazidi relatam as atrocidades perpetradas pelo Estado Islâmico contra as mulheres, como estupros massivos, a venda de meninas e o mercado de escravas sexuais.

NOVA YORK, Estados Unidos, 30 de Abril de 2016 (ACTUALL) – A jovem yazidi Samia Sleman foi sequestrada pelo Estado Islâmico quanto tinha apenas 13 anos, foi vendida como escrava sexual e estuprada em diversas ocasiões. Seu inferno ainda não terminou porque 45 membros de sua família “continuam em cativeiro” e porque ela não se esquece de que há ainda mais de 3.000 garotas vivendo o horror que ela sofreu.

“Eu pude escapar, mas há mais de 3.000 meninas yazidis que são escravas sexuais” em poder do Estado Islâmico, assegurou Samia no último sábado durante o Congresso #WeAreN2016, que se celebrou em Nova York e foi organizado por CitizenGO e MasLibres.org.

Seu testemunho foi apresentado em um painel que teve como tema o sofrimento das vítimas do EI, do qual participaram também os pais de Kayla Mueller, a jovem norte-americana ativista dos direitos humanos raptada e assassinada pelo Estado Islâmico. O painel foi moderado pelo diretor do projeto ‘Haven’, da organização In Defense of Christians, Stephen Hollingshead.

Sleman relatou como o EI atacou sua aldeia e sequestrou sua família. “Quarenta e cinco pessoas de minha família continuam em cativeiro. Meu pai, meu avô e meu tio continuam presos e não sabemos nada deles,” contou aos presentes no Congresso.

Durante seu cativeiro, esta menina viveu um autêntico inferno. “Vi situações horríveis, estupravam meninas de sete e oito anos, torturavam as pessoas e as faziam morrer de fome,” recordou. E às jovens como ela vendiam a membros do EI como escravas sexuais.

Esta garota yazidi contou o que viveu nesse momento: “Lembro-me de que me venderam a um membro do EI de 50 anos, que logo depois a vendeu a outro ainda mais velho. Esses homens velhos nos mantinham em suas casas como escravas sexuais. Estive dois meses com o último homem ao qual me venderam; ele fazia coisas horríveis comigo.”

As mulheres que se negavam a manter relações sexuais com eles eram maltratadas ou mortas. Ela contou como finalmente conseguiu escapar: “Vesti uma roupa de menino, cortei os cabelos e uma manhã bem cedo comecei a caminhar, caminhar, caminhar.”

Finalmente, conseguiu pegar um taxi e teve a sorte de o taxista não ser do EI, e tê-la ajudado a escapar. “Ele me levou para sua casa, deu-me uma carteira de identidade com outro nome e me ajudou a chegar ao Curdistão,” relatou a jovem.

O legado de Kayla Mueller

Com apenas 26 anos, Kayla Mueller foi sequestrada pelo Estado Islâmico e levada para Raqqa, bastião da organização terrorista na Síria. Seus pais, Carl e Marsha Mueller, e seu irmão Eric mantiveram silêncio para não obstaculizar uma possível libertação da ativista humanitária. Mas em 6 de fevereiro de 2015, depois de 18 meses de angústia, confirmaram a pior das notícias: Kayla havia falecido, atingida por um projétil no lugar em que estava retida, durante um dos bombardeios jordanos com objetivos yihadistas.

Carl e Marsha Mueller contaram ao mundo o drama que viveram com o sequestro de sua filha, que foi entregue como escrava sexual ao chefe do Estado Islâmico, Al Bhagadi, antes de ser assassinada.

Em sua comunicação durante o Congresso, os pais de Kayla leram uma carta que a filha lhes escreveu em 2011 na qual dizia que encontrava a Deus nos que sofriam e que “toda luta pela liberdade e a justiça” era a sua luta, pois todos “os inocentes que estão sendo sacrificados” eram para ela seu próprio povo.

“Sinto todo o sofrimento que os fiz passar, perdoem-me; mamãe, você me dizia que ao fim e ao cabo a única coisa que temos é Deus. Estamos em um lugar em que todo o sentido é dado pelo Criador, e com suas orações me sinto nas mãos de Deus. Ele nos liberta de todos os cárceres. Às vezes só há que buscar o que há de bom em cada situação, e rezo para que vocês sintam essa proximidade. (…) Não fugi, continuarei lutando. Não tenham medo por mim, graças a Deus voltaremos a nos unir,” explicava a jovem cooperadora na carta.

Seus pais a têm na memória como uma jovem lutadora. “Nossos corações estão partidos, sentimos terrivelmente sua falta e choramos por tudo o que teve que suportar,” conta emocionada a família Mueller.

Assim, os pais desta jovem lutam, desde que lhes informaram da morte de sua filha, para que a obra de Kayla não caia no esquecimento e para que sejam defendidas as milhares de pessoas que estão sendo perseguidas pelo Estado Islâmico. “A única coisa que podemos fazer é continuar contando ao mundo o sofrimento de que ela foi testemunha, fazer um chamamento ao mundo para que atue como uma só voz para proteger a liberdade e aliviar o sofrimento pelo qual Kayla deu sua vida, negando-se a permitir que esse sofrimento se converta em algo normal,” contaram aos presentes.

Os pais desta jovem cooperadora destacaram também a fortaleza de sua filha. Um grupo de franceses que também estava em cativeiro e que finalmente foi libertado disse-lhes que ela chegou a dizer a um dos chefes islamistas: “Desculpe-me, mas não me converti.” “Ninguém se atrevia a falar assim com ele”, disseram os franceses a Carl e Marsha Mueller.

Por último, este casal se mostrou muito crítico ao governo dos Estados Unidos. Ao lhes perguntarem que recomendariam a alguém que passasse pela situação pela qual passaram, disseram: “Dói-nos dizê-lo, mas lhes aconselharia que não confiassem no governo americano. Nós depositamos toda nossa fé em que recuperariam Kayla e a única forma de fazê-lo era através de um resgate.”

Eles não tinham os seis milhões de dólares que os yihadistas exigiam, mas havia gente disposta a ajudá-los. “Aqueles que tinham dinheiro e estavam dispostos a ajudar foram ameaçados de ser processados (…) Iam-nos fechando todas as portas, uma após a outra.”