Caixões, velórios e relicários: enterros de luxo para animais de estimação

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Um cemitério para animais de estimação em Madri abriga os restos mortais de 4.000 animais.

29 de Abril de 2016 (Religión en Libertad) – Você dispõe de 5.000 euros? Em caso afirmativo, você poderá então enterrar seu animalzinho em uma das exclusivas “valas de honra” do Último parque, um cemitério de animais de estimação situado nos arredores de Madri. Por esse preço, você terá o direito de enterrar seu cão, seu gato ou sua iguana em um nicho “construído individualmente, em forma de círculo, forrado em mármore italiano de primeira qualidade.”

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Assim diz o informativo desse cemitério fundado em 1983 e que acolhe os restos mortais de 4.000 animais de companhia. Além disso, seu animalzinho gozaria de “vizinhos” de renome, pois aqui jazem os cães do ex-ministro Francisco Fernández Ordóñez, do compositor Ernesto Halfter, do ator Fernando Tejero ou do showman Pablo Carbonell, dentre outros. “Os donos de ‘Reflection’, que residem nos EUA, visitam anualmente a tumba de seu cão,” relatam orgulhosos em sua webpage os responsáveis pelo cemitério.

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Mas o caso desse cemitério de animais de estimação não é único nem o mais extravagante. As incinerações de animais domésticos aumentaram cinco vezes na última década. Só em Madri, em torno de 35.000 corpos inertes dos melhores amigos do homem passaram pelo forno crematório no ano passado.

Um bonito leito

E não se limitam só à incineração e ao enterro: estas empresas buscam preencher o vazio que os mascotes deixam em seus donos. “O final digno que eles merecem” é o lema de uma delas. Por isso, oferecem “todos os serviços necessário para assistir-lhes neste momento delicado.”

“Dispomos de uma sala de velório onde se pode despedir-se com total intimidade do mascote”, explicam, “a qual será previamente preparada para que tenha uma boa apresentação para a hora em que seus familiares o virem pela última vez”. A sala tem capacidade para trinta pessoas, para o caso de o animal em questão gozar de tantas amizades humanas.

Não acabam aí as atenções da funerária animal. A empresa oferece grupos de auto-ajuda para superar a perda, assistência terapêutica individual – no caso de a perda tornar-se insuperável -, apoio terapêutico por telefone e online, palestras e oficinas sobre a perda, mensagens virtuais e inclusive a assistência de uma psicóloga especializada no tema.

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É claro que todas as funerárias dispõem de uma loja onde se podem adquirir os mais diversos produtos, como urnas decoradas com pegadas de cão, joias incrustadas com uma mecha de pelo do mascote ou caixões “cuja fabricação cumpre com as normas ambientais, sendo extremamente respeitosos com o meio-ambiente e o protocolo de Kyoto.”

Outras das estrelas dentre os produtos são as “imagens memoráveis”: “Você pode homenagear o seu animalzinho colocando suas cinzas em um quadro. Mediante um processo pictórico de transformação das cinzas (PPTC), oferece-se a possibilidade de preservar a imagem do ser amado para a posteridade”, explicam.

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Para sempre na lembrança

Os produtos mais chamativo são, sem dúvida, os chamados “relicários”. À imitação do que faz a tradição católica com seus santos, os “relicários” animais destinam-se a conservar um pequeno pedaço do melhor amigo do homem. “Mantenha seu animal bem próximo de você com nossos relicários,” propõe uma das empresas. “Graças a seu pequeno compartimento, você pode guardar uma pequena porção de suas cinzas e ter seu animal sempre com você. O relicário é acompanhado por um pingente e um fecho de prata, formando um conjunto elegante e sofisticado,” assinalam.

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A vertente pseudorreligiosa e escatológica está de algum modo presente nesse tipo de negócio. Uma das empresas, por exemplo, tem o pomposo nome de “Santo Antônio Abade Memorial Center.”

A sensação de exclusividade talvez se perca ao contemplar as instalações do citado “memorial”: um local simples em um perdido complexo industrial de uma vila nos subúrbios da capital.

Os meios para evitar o sofrimento 

O luto, o acompanhamento, a atenção personalizada, o caixão, a tumba e tudo o mais fazem com que o enterro de um animal de estimação pareça-se muito (e, em certos casos, até supere) o de um ser humano. Como promete uma dessas companhias em sua página na internet (cheia de erros de ortografia), “nossa equipe de profissionais tratará de seu animal com o amor que todo dono tem por seu animal de companhia, porque sabemos que é o que você gostaria. Seu animal estará nas melhores mãos.”

Se for necessário sacrificar o animal para não prolongar desnecessariamente seu sofrimento em caso de doença, estas empresas oferecem “um serviço de eutanásia a domicílio.” “Realizado por uma equipe com os melhores profissionais, seu animal de estimação não sofrerá o stress do deslocamento e você ganhará em comodidade, além de dispor do tempo que precisar para despedir-se de seu querido animal, no aconchego do lar,” consolam eles.

Para os mais previdentes, oferece-se um serviço de incineração individual (pois também há as grupais) mais sessão fotográfica por 400 euros. As fotos evidentemente fazem-se em vida do animal e se convertem em uma recordação para depois de sua morte.

Os clientes parecem encantados: “Seus serviços são excepcionais. Devolveram-me minha cachorrinha com uma grande delicadeza, fazendo um quadro com seu nome, com a marca de sua pata e uma mecha de seu pelo. Sou-lhes muito grata pela paz e consolo que me proporcionaram.”

A carta fictícia

Mas se você continuar desconsolado apesar de todos os cuidados dispensados por estas empresas, então nada melhor que uma carta sentimental de seu animal de estimação, escrita desde o além. O texto é impagável (novamente, está cheio de erros gramaticais):

“Não chores por mim, me deste um lar onde me abrigar, me deste alimento e sobretudo me deste teu amor e tua companhia. A última coisa que queria era ver-te sofrer por mim. Agora que não estou contigo, não quero te ver triste. Desejo que quando penses em mim, sorrias, pois assim saberei que minha lembrança te faz feliz.

Quero que recordes os bons momentos que vivemos, nossas demonstrações de carinho, nossas brincadeiras… E se alguma vez te decepcionei ou me comportei mal, por favor, me perdoe. Eu te peço que não te desfaças dos meus brinquedos nem da minha cama…

As que ontem fossem minhas coisas, amanhã podem ser de outros colegas que vivem na solidão, tristes e sem carinho. Eles dariam a vida para compartilhar da tua. E não digas que não queres ter mais animais: isso me faz pensar que o tempo que estive contigo não te fiz feliz.

Por favor, que minha partida não seja em vão. Que sirva para que outro tenha a sorte de viver e conhecer a maravilhosa que é tua amizade, que conheça a verdadeira vida de cão, que descubra o carinho. E não fiques triste. Eu não estou, porque sei que sempre guardarás este lugarzinho especial para mim em teu coração.”

Reportagem no Youtube (em espanhol) do programa de TV PeloPicoPata, sobre mascotes. “Para mim, não é um animal, é como se fosse uma pessoa,” diz a dona da cachorrinha Lily. “Quero para ela o mesmo que para os meus familiares.”